Massaud Moisés, autor de 'A Literatura Portuguesa' e 'A Literatura Portuguesa Através dos Textos'
"Sabático" - o prestigiado caderno de cultura do jornal Estado de S. Paulo - dedica boa parte da sua edição de hoje à literatura portuguesa, que é também o tema de capa.
Sob o título genérico "Expressão Portuguesa", o jornal destaca que uma série de novos lançamentos de obras de ou sobre autores portugueses "volta a confirmar o interesse do Brasil pela literatura que vem de Portugal".
Concretamente, assinalam-se a edições ampliadas de duas obras de referência já clássicas, da autoria de Massaud Moisés, um estudo sobre os primeiros romances de José Saramago, a crescente descoberta de Maria Gabriela Llansol e o lançamento de um novo livro de José Luís Peixoto.
Um dos trabalhos que integram o "Sabático" é o artigo de António Gonçalves Filho intitulado "A vanguarda lusa de pois de Salazar", que a seguir se reproduz.
Além de revistos e corrigidos, dois livros clássicos do professor titular de Literatura Portuguesa da Universidade de S.Paulo/USP, Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa (37.ª edição) e A Literatura Portuguesa Através dos Textos (33.ª edição) sofreram acréscimos para abrigar escritores contemporâneos não contemplados nas edições anteriores.
Nessas obras, a história literária de Portugal depois da Revolução dos Cravos é contada com clareza e imparcialidade, características de um dos maiores especialistas no tema. Sobre os novos autores portugueses, surgidos com o fim do regime salazarista, Massaud Moisés falou ao Sabático em entrevista exclusiva.
Na conversa, o mestre confirmou seu entusiasmo por nomes como os de Gonçalo M. Tavares, Teolinda Gersão e Lídia Jorge, além do apreço por outros já mortos como José Saramago e Maria Gabriela Llansol, ambos comentados nesta edição do caderno - o Nobel pela publicação de José Saramago - Tudo, Provavelmente, São Ficções; Mas a Literatura É Vida, e Maria Gabriela Llansol por três lançamentos da Editora Autêntica.
As sucessivas edições dos dois livros de Massaud Moisés contam as principais fases históricas da literatura portuguesa, da poesia trovadoresca aos autores da geração de Gonçalo M. Tavares, passando pelos clássicos, barrocos, românticos, realistas, simbolistas, neorrealistas e surrealistas. Nesses livros do professor, a intensa atividade poética dos portugueses merece análises detalhadas, destacando-se dois poetas nascidos no mesmo ano, 1930: Herberto Helder, natural da Ilha da Madeira e associado ao surrealismo tardio, e Albano Martins, escolhido por sua concisão e outra característica pouco associada a um lírico, o erotismo.
Tanto Helder como Martins começaram a publicar antes da queda do salazarismo, assim como um dos escritores preferidos do estudioso, Vergílio Ferreira (1916-1996), que iniciou sua carreira em 1943 com O Caminho Fica Longe. Saramago pertence à mesma geração (era seis anos mais novo) e lutou pelos mesmos ideais, ou seja, contra as arbitrariedades do regime de Salazar. A prosa de Saramago (1922-2010), no entanto, parece destinada a provar uma tese, contaminada por uma perspectiva política, segundo a análise que Moisés faz de O Ano da Morte de Ricardo Reis.
Já Vergílio Ferreira, embora com o mesmo empenho ideológico, começou como neorrealista mas se livrou da carga barroca que se manteve em Saramago. Segundo o professor, Vergílio é a grande figura literária dos anos 1940 em Portugal, especialmente por Mudança (1949), obra de transição entre a escola neorrealista e a literatura existencialista.
Numa comparação entre Saramago e o neorrealista Carlos de Oliveira (1921-1981), que nasceu em Belém do Pará mas foi criado em Portugal, Moisés destaca o último por seu “empenho político nada ostensivo”. Oliveira, frisa o especialista, a exemplo de outros representantes da escola neorrealista portuguesa (1940-1974), revela uma forte influência dos romancistas brasileiros do Nordeste - entre eles o baiano Jorge Amado -, que seguiu até o fim do regime salazarista. “É nesse quadro que surge Maria Gabriela Llansol (1931-2008), com narrativas que se caracterizam pela fragmentação”, observa o professor da USP.
Em A Literatura Portuguesa, ele compara o texto desestruturador, metalinguístico, de Gabriela - “resultante da associação livre, que lembra a linguagem automática dos surrealistas” - ao hiper-realismo do pintor norte-americano Edward Hopper. Nessa desconstrução textual de Llansol, o absurdo, o fantástico e o onírico emergem da própria realidade, conclui Moisés. A diferença entre Saramago e Llansol é que a autora de Lisboaleipzig não observa essa realidade com dogmas ideológicos, compara o estudioso.
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