António Damásio- escreve Daniel Piza - é um dos mais respeitados neurocientistas e neuroescritores do mundo. Desde O Erro de Descartes, vem desenvolvendo uma linha de pesquisa e pensamento bastante original, mostrando cientificamente por que corpo e mente não se separam como água e óleo.
É um dos expoentes da "terceira cultura", capaz de recorrer a pensadores das chamadas humanidades, como Spinoza ou, no novo livro, William James, para inspirar suas hipóteses. E, no entanto, ao contrário de tantos intelectuais com status semelhante - ou mesmo, em verdade, com status bem abaixo -, Damásio mudou algumas de suas ideias mais importantes e, atenção, por causa de achados alheios que o obrigaram a tanto. Como dizia Keynes, se os fatos mudam, as ideias também precisam mudar.
Esse é apenas um dos motivos para que não se deixe de dar ao novo livro de Damásio, E o Cérebro Criou o Homem (título original Self Comes to Mind: Constructing the Conscious Brain; editora Companhia das Letras, tradução Laura Teixeira Motta), a importância que merece.
Como vivemos em tempos cínicos, e como Damásio é o primeiro a alertar que ainda conhecemos pouco sobre o complexo funcionamento cerebral, o risco é grande. Afinal, o que ele está dizendo agora bate ainda mais de frente com o senso comum, segundo o qual o coração toma decisões mais autênticas e a razão só ajuda quando não o atrapalha. Também nas artes e até em comentários desportivos somos obrigados a ouvir que "o corpo sabe antes", como se qualquer nota de consciência fosse desafinar o gesto plástico e memorável da expressão pessoal.
Um dos conceitos mais caros de Damásio era o da "consciência central", ou seja, uma série de atividades cerebrais que regulariam o funcionamento do corpo e das emoções sem participação alguma da "consciência ampliada", aquela exercida pela linguagem e pelo raciocínio abstrato no córtex frontal.
O que ele diz no novo livro é que, embora grande parte das ações e reações seja fisiológica, comandada pela homeostase, autônoma em relação às vontades do nosso eu, da nossa mente consciente (ou "self autobiográfico", como diz), a interação entre essas duas camadas é muito mais rica e sutil do que ele supunha.
Declaradamente, diante de novas pesquisas de imagem neuronal e de pacientes com lesões cerebrais, ele acaba de abandonar esse dualismo. "Hoje em dia vejo mais volatilidade na abrangência da consciência", escreve. "Os níveis de consciência flutuam durante uma situação."