Em discurso proferido nas cerimónias oficiais do 25 de Abril, em Lisboa, o Presidente da República, Cavaco Silva, fez hoje um apelo directo aos partidos políticos. A campanha eleitoral - disse - não deve inviabilizar “o diálogo e os compromissos de governabilidade de que Portugal tanto necessita”.
Trechos da intervenção do Presidente da República, Cavaco Silva, na cerimónia comemorativa do 37º aniversário do 25 de Abril:
"O 25 de Abril de 1974 restituiu ao povo a sua voz, a voz que a ditadura tinha silenciado durante quase cinquenta anos. Nos momentos decisivos, é a voz do povo que deve fazer-se ouvir. Em democracia, há que respeitar a soberana decisão dos cidadãos. Homenagear o 25 de Abril e aqueles que o fizeram é, acima de tudo, ter confiança na maturidade cívica dos Portugueses e respeitar os princípios da democracia e as opções esclarecidas feitas em liberdade.
Portugueses,
A liberdade e a democracia que conquistámos exigem de todos sentido de responsabilidade e uma consciência clara da situação em que nos encontramos.
Em breve, os Portugueses serão de novo chamados a escolher os caminhos que querem trilhar. As eleições irão ter lugar num tempo de sacrifícios e de grandes interrogações quanto ao nosso futuro. Daí que seja fundamental, absolutamente fundamental, que, na campanha eleitoral que se avizinha, os partidos políticos adoptem uma conduta responsável e saibam estar à altura deste desafio.
Os programas de cada partido têm de ser apresentados ao eleitorado com serenidade. Não podem ser feitas promessas que não poderão ser cumpridas. Vender ilusões ou esconder o inadiável é travar a resolução dos problemas que nos afligem.
Dos agentes políticos exige-se que actuem com transparência e com verdade, que esclareçam devidamente os Portugueses, sem subterfúgios e crispações artificiais, sem querelas inúteis.
Os Portugueses não se revêem num estilo agressivo de actuação política, feito de trocas constantes de acusações e de tensões permanentes. Esta é uma prática de que temos de nos libertar, como há trinta e sete anos nos libertámos de um regime que nos oprimia.
Os Portugueses querem escolher seriamente propostas e soluções concretas para os seus problemas. As próximas eleições serão um teste decisivo para o regime nascido dos anseios de Abril de 1974. Por isso, a próxima campanha eleitoral deve decorrer de uma forma que não inviabilize o diálogo e os compromissos de governabilidade de que Portugal tanto necessita.
Todos os partidos devem perceber, de forma muito clara, que, independentemente daquilo que os divide, é imperioso criar espaços de entendimento que assegurem soluções estáveis e credíveis de governo.
Perante os desafios que tem à sua frente, o Governo saído das eleições de 5 de Junho deve dispor de apoio maioritário na Assembleia da República.
Ainda antes das eleições, impõe-se um esforço de concertação entre o Governo e os partidos políticos relativamente às condições para a obtenção da assistência financeira externa indispensável à salvaguarda do interesse nacional e a assegurar as necessidades de financiamento do Estado e da nossa economia.
A União Europeia, a que aderimos graças à democracia, está de novo confrontada com grandes questões que desafiam o seu futuro e exigem também um elevado sentido de responsabilidade da parte dos Estados-membros.
Os líderes europeus não podem permitir que os egoísmos e as lógicas meramente nacionais se sobreponham a uma agenda estratégica que assegure a sustentabilidade da zona euro, sem descurar o crescimento económico, a criação de emprego, a competitividade e o pilar essencial da integração europeia que é a coesão.
Portugueses,
Este é um tempo de sacrifícios, sem dúvida, mas também um tempo de grandes escolhas. Quando uma democracia se encontra numa encruzilhada, tem de se devolver a palavra ao povo e, depois, respeitar as opções que o povo decidir tomar.
A comunicação social desempenha neste contexto um papel essencial na informação dos cidadãos, devendo actuar com isenção e com independência. Não pode julgar que está excluída do compromisso de responsabilidade que o momento presente exige de todos. À comunicação social cabe informar com rigor os Portugueses, não iludi-los com o acessório em detrimento do essencial, competindo-lhe ainda contribuir para que o debate se centre nas soluções, nas ideias e nas visões de futuro.
Os Portugueses são também chamados a este compromisso de responsabilidade e de unidade, que tem como horizonte o futuro do seu País. Em nome desse futuro, é essencial que os Portugueses participem activamente no próximo acto eleitoral, pois seria incompreensível que, no momento crucial que atravessamos, os cidadãos se abstivessem de votar e de decidir o seu destino e se alheassem da campanha que em breve se irá iniciar.
Compreendo que muitos cidadãos, ao fim de quase quarenta anos de regime democrático, se sintam desiludidos quando confrontam as esperanças de 1974 e as realidades do momento presente.
Vivemos um tempo em que os sonhos do passado parecem ter desaparecido. Mas não podemos perder a ambição de um tempo melhor. Está nas nossas mãos realizar os sonhos, reinventar a esperança, e só a nós competirá fazê-lo. Hoje mesmo, no imediato, temos de acreditar que é possível vencer."
Leia na íntegra os textos das intervenções proferidas nas comemorações oficiais do 25 de Abril
aqui.