
Catarinense de nascimento e mulher do mundo,
Asta-Rose Alcaide vive em Brasília desde a década de 60 e, desde então, é uma das grandes colaboradoras da cultura na cidade.
Fundadora da Associação Ópera-Brasília (1978) já produziu 17 óperas na capital. Em sua trajetória, foi directora artística do Teatro Nacional e assessora para Assuntos Especiais da Secretaria de Cultura do DF. Actualmente ocupa o cargo de Assessora Artística da Orquestra.
Asta-Rose fez do Teatro Nacional Cláudio Santoro, em Brasília, seu abrigo preferido. Quando aqui chegou, na década de 60, frequentou concertos e recitais na recém-nascida Sala Martins Pena. E em 21 de abril de 1981, assistiu à inauguração definitiva do Teatro Nacional com o concerto da Orquestra Sinfónica de Brasília - ainda sob a regência de Claudio Santoro.

Viúva do maestro português
Tomás Alcaide, Asta-Rose já teve seu nome escrito em Lisboa, onde foi cenógrafa e colaboradora de grandes montagens de óperas.
— Tinha 18 anos, estava dançando no Municipal de São Paulo, quando chegou um grupo de artistas estrangeiros foragidos. Era o ano de 1941. Tudo foi muito rápido. A gente se viu e pouco mais de um ano estávamos casados, lembra Asta-Rose sobre como começou o seu amor português.
As imagens, objetos, documentos e livros de Tomás Alcaide estão ali, diariamente, diante de Asta-Rose. Ele faleceu em 1967. Viveram juntos pouco mais de 25 anos. Pouco tempo, afirma a viúva, que manteve o status civil por fidelidade à história de amor. Nalgumas fotos, ele aparece com ar de Rodolfo Valentino. Era um homem bonito, estilo galã, que foi cobiçado até por Hollywood, mas disse não. Era casado com a música.
— Com ele, aprendi tudo sobre óperas, a me interessar sobre óperas, a aprender a produzir óperas em Portugal, conta.
O dois conheceram Brasília em 1962. Vieram porque ficaram curiosos sobre a construção da capital moderna. Hospedaram-se no Brasília Palace Hotel. Asta-Rose nem cogitava vir morar por aqui. Mas parecia estar traçado. Ela ainda viveu um tempo sozinha em Portugal após a morte do marido. Até que recebeu um convite para assumir as questões culturais da Embaixada dos Estados Unidos.
Chegou em 1972 e o primeiro ano foi de dificuldades de adaptação. O obstáculo: a seca. Não exatamente a da natureza. Mas a da vida cultural. Aqui, havia pouca coisa, quase um deserto para uma mulher acostumada com a efervescência da Europa. Ópera então era raridade. Agora, Asta-Rose se sente brasiliense. No centro da sala, está emoldurado o diploma de cidadã honorária. É um dos seus orgulhos.
— Começa aí meu trabalho para criar a Associação Ópera-Brasília, fundada em 1978 e inaugurada em 1979, com Amahl e os visitantes da noite, na Escola de Música de Brasília. O maestro Claudio Santoro estava na regência, mas ele não era um homem afeito à ópera, pontua.
Nos 32 anos de actividade da associação, foram 18 óperas criadas. Houve períodos de uma produção por ano. A época de Silvio Barbato foi a mais fértil. Asta-Rose se multiplicava para dar conta de tudo. À mente vêm flashes dela pintando cenário e subindo em escadas para retoques. Fala com ânimo da tentativa de popularizar a ópera no Distrito Federal.
— Há quatro anos não temos uma produção. Mas estou cheia de planos. Eu não paro, revela.
Tomás Alcaide
Um dos grandes tenores de Portugal, Tomás Alcaide nasceu em Estremoz, Alto Alentejo, em 1901 e morreu em Lisboa em 1967. Foi uma das estrelas do Teatro Scala de Milão. Figura marcante na vida cultural da Europa, colaborou com a Companhia Portuguesa de Ópera. Escreveu a autobiografia Um cantor no palco e na vida (1961). A sua memória está bem preservada na Europa.
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